sábado, 29 de agosto de 2009

trajetória comum

nasceu numa família católica, cresceu católico.
conforme cresceu, começou a ter dúvidas, perguntas, mas não respostas.
então foi se afastando e parou.
continuou crescendo, mas sem se dizer católico.
durante um bom tempo da vida ficou assim.
quando estava num momento complicado, numa oportunidade foi à igreja "de crente".
e viu que era tudo muito muito diferente.
algumas partes eram bonitas, outras esquisitas.
mas ia, sentiu-se até bem. precisava de algum conforto pra alma.
mas depois foi cada vez se sentindo mais estranho ali dentro.
e começou a ver coisas que não entendia, de novo.
e as perguntas começaram a ficar sem resposta outra vez.
então parou de novo.
mas o que sempre teve era a crença em deus, poderoso, amoroso.
e só.
para além disto, chegava-se sempre nas religiões e cada uma se dizia verdadeira.
qual era certa?
todas e nenhuma?
cada uma a seu modo?
ele não sabia.
e seguiu sua vida como de qualquer jeito seria, sem respostas definitivas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Souvenir

Das férias no interior da Bahia, consegui trazer muitas boas lembranças, mas também uma das coisas menos bacanas possíveis: uma ridícula marca de chinelo de dedo feita pelo sol. ¬¬

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Seria diferente?

As coisas seriam muito diferentes se a gente nascesse em outro lugar, em outra hora, sob outra conjunção astronômico-astrológica?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Esse tal de rock enrow" [editado]

Rock: estilo musical surgido há umas décadas atrás, quando inventaram a guitarra elétrica. Quem gosta de rock se veste só de preto, usa tatuagem, não é religioso, não tem futuro. No rock não existe um jeito certo de dançar e existem dentro dele vários gêneros que vão desde o metal até o alternativo (este sendo um termo equivalente à virose na medicina, quando o médico não tem certeza do que o paciente tem na verdade).
O rock não é apenas um estilo musical, mas um estilo de vida. Quem gosta de rock não gosta de pagode ou sertanejo. Quem gosta de rock é mal. Quem gosta de rock se alimenta de porcarias e tem uma vida desregrada. O rock é como se fosse uma religião cujo maior objeto de adoração são os caras que produzem os riffs mais barulhentos em suas guitarras.

Claro que nem tudo isso é verdade.
Claro que rock não é (bem) isso.
O rock pode (também) ser definido como:

Rock é antes de tudo, som. Mas não é apenas um tipo especial de música, de compasso ou de ritmo. Restringi-lo a isso é não reconhecer sua profunda penetração numa parcela (cada vez mais) significativa das sociedades ocidentais. O rock é muito mais do que um tipo de música: ele se tornou uma maneira de ser, uma ótica da realidade, uma forma de comportamento. O rock é e se define pelo seu público. Que, por não ser uniforme, por variar individual e coletivamente, exige do rock a mesma polimorfia, para que se adapte no tempo e no espaço em função do processo de fusão (ou choque) com a cultura local e com as mudanças que os anos provocam de geração a geração.
Estudar o Rock é procurar compreender os movimentos da mentalidade. É tentar descobrir no coletivo as razões interiores que motivam à participação (ou à alienação), é entender melhor porque fazem aquilo que fazem os movimentos jovens. Num momento da vida de extrema riqueza de questionamento dos valores, embaraçam linhas cujo fio da meada pode ser vislumbrado, com grande facilidade, num som eletrificado.
Nas palavras de Elvis: "É difícil explicar o rock'n'roll... É uma batida que te pega. Você o sente."

Trechos em itálico são do livro "O que é rock?", de Paulo Chacon. Editora Brasiliense, São Paulo, 1983.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Bem simples

As pessoas buscam a felicidade plena. Os contos de fadas sempre terminam com o velho “...e viveram felizes para sempre”. Eu não quero viver feliz para sempre. Ninguém vive feliz para sempre. No máximo sobrevive. Não quero isso. Quero antes os problemas a serem resolvidos, mas também a certeza da companhia da pessoa amada.
Quero uma vida normal (e o que é normal?).
Quero a felicidade diária, presente nas pequenas coisas, nos momentos mais singelos.
Quero poder olhar nos olhos e me sentir segura.
Quero ter a certeza de que somos livres para seguirmos nosso caminho separadamente caso não nos sintamos mais à vontade juntos.
Não quero cobranças nem cenas de ciúme. Não quero sentimento de posse nem sobreposição de egos.
Quero ter a certeza de estar ao lado de quem realmente me quer do seu lado.
Quero ser compreendida através de um olhar quando as palavras me faltarem. E também quero a confiança num abraço acalantado.
Não quero ser vista por fora, quero antes ser observada por dentro.
Mais do que sair toda arrumada para uma noite de gala, quero uma tarde de sol com os pés no chão.
Não basta a mansidão da paz; quero também conflitos nos quais possa haver a busca do entendimento, do esclarecimento, da compreensão mútua enfim.
Se conseguir encontrar isso, então não vou querer mais nada...

Faz muito tempo que escrevi isso, mas agora deu vontade de publicar. É que eu acho que finalmente encontrei!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

rain


Escorro pelo vidro como algo disforme, sem cor, sem significado. Desço pelas folhas ainda verdes que se curvam ao meu peso e imprimem a mim nova velocidade. Caio sobre um rosto borrado e me misturo a lágrimas salgadas e amarguradas de alguém que anda sem rumo no meio da rua. Acumulo no meio fio e alago a calçada fazendo molhar os sapatos da moça chique e decidida que desce do carro estacionado. Desmancho os cabelos do rapaz que tanto se empenha por mantê-los alinhados. Cometo os maiores desastres que posso antes que minha aparição termine. Procuro cair de forma marcante e arrasto porções de vida de quem para mim olha e aos céus amaldiçoa pelo inconveniente. Chovo. Borro a paisagem. Caio no chão e me infiltro na terra. Mergulho no mais profundo até não poder mais ser encontrada. Depois volto para a atmosfera, para outra nuvem, até cair novamente.

domingo, 21 de junho de 2009

socorro

Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva

Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento,
Acostamento, encruzilhada
Socorro!
Eu já não sinto nada

Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar, nem de rir

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que este já não bate nem apanha
Por favor, alguma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva

Arnaldo Antunes

segunda-feira, 15 de junho de 2009

o grito


Era um grito como ninguém jamais havia dado antes. Nele estavam contidos toda sorte de sentimentos que viviam ali presos dentro de si, como se a garganta fosse uma catraca a impedir a saída de seus dizeres a respeito de tudo que via e que lhe despertava opiniões. Enquanto gritava pensava em tudo que não havia feito, nos lugares em que não havia estado, nas conversas que não teve, nas roupas que não vestiu, no cabelo que não usou, nas frases que não falou. Tudo parecia sair ali por aquele grito. Tudo o que foi abafado pelo medo do comentário alheio, da imagem que faziam de si, das conseqüências de se fazer o que se quer.

O grito interrompia o sono dos que estavam por perto. Interrompia o silêncio de uma madrugada que antecedia a manhã de um dia que não seria jamais igual aos anteriores. Interrompia uma calmaria que cobria uma explosão de pensamentos, de idéias, de sentimentos, de vontades, de desafios e curiosidades.

O grito ecoava e se reproduzia dentro de si anunciando que o caminho se abria. E depois do grito olhou ao redor e tudo parecia quieto. O grito apenas a fizera acordar do sonho em que havia estado durante todo o tempo vivido. Foi então que notou que a vida havia passado completamente e a noite calada lhe mostrava que não havia mais tempo. A vida já havia passado.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Leve


Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho

Hilda Hilst

quinta-feira, 11 de junho de 2009

remoto

Quero chegar no lugar onde as retas paralelas se encontram
Quero chegar onde os números terminam
Quero estar onde todas as hipóteses acontecem

Quero viver o irreal e tocar o inatingível
Quero observar o invisível e sentir o gosto do insípido

Só não quero mais o que é provável
Não quero ver o que conheço
Não quero ponderar entre possibilidades cabíveis

Quero aquilo que me deixe estática,
Que me faça sentir surpresa
E quero não saber do amanhã

Quero não ter certeza senão do agora, senão da vida.



segunda-feira, 8 de junho de 2009

andanças

pela dúvida na crença
pelo medo do novo
por causa das dúvidas
a insegurança se havia instalado.

pelo sentimento benéfico
por causa da paciência
e pela confiança
a segurança tomou de volta o seu lugar.

pela mágica da transformação
pelo silêncio dos processos
ou por causa da improbabilidade
perguntariam se não seria tudo falso.

por tudo que tem acontecido
e pelo que ainda acontecerá
por causa do que se está sentindo
se pode dizer que tudo é mesmo real.

sábado, 6 de junho de 2009

um pouco de quase tudo de mim

Pareço estranha, mas sou comum.
Pareço comum, mas sou estranha.
Eu gosto das coisas simples.
Mas freqüentemente tenho umas pirações complexas na cabeça.
Gosto de dias cinzas.
Prefiro o inverno ao verão.
Às vezes passo mal no verão, com quedas de pressão.
Gosto de rock.
Gosto de MPB.
Gosto de música eletrônica.
Gosto de moda de viola.
Não gosto de reggae.
Acredito em Deus.
Torço pela felicidade dos que gosto.
Não sinto ódio por ninguém, não tenho inimigos (acho).
Já quebrei o dedo mindinho quando tinha uns oito anos.
Gosto de crianças.
Gosto de idosos.
Não gosto muito de adolescentes.
Tenho uma leve fobia social.
Sou louca por doces.
Torço pelo Corinthians, embora não fervorosamente.
Nunca usei camisa de time.
Nunca participei de campeonato esportivo.
Já ganhei um troféu de melhor fantasia de Xuxa quando tinha uns quatro anos.
Já fiz papel de menino numa quadrilha na pré-escola.
Já namorei por mais de um ano.
Tenho dificuldades em ler livros até o fim. (Mas leio.)
Começo vários livros ao mesmo tempo =/
Não consigo falar inglês, embora compreenda razoavelmente.
Gosto de falar em portunhol, só de zuação.
Tenho miopia e astigmatismo e uso óculos desde os 12 anos.
Não uso sapato de salto.
Tenho pavor de falta de luz à noite estando sozinha em casa.
Tenho fobia de bichos lisos tais como lesmas, lagartas, mandruvás (!) e afins.
Tenho nojo de barata, mas se preciso, mato.
Você dificilmente vai me ver puxando conversa com estranhos.
Gosto de objetos coloridos, principalmente quando têm as cores vermelho, azul e amarelo.
Adoro artesanato.
Adoro ficar dentro de casa.
Adoro aprender e fazer origami.
Adoro fotografias, mas não gosto de estar nelas.
Gosto de viagens, mas pouco as faço.
Sonho em viajar pela América Latina.
Sonho com um sistema de educação pública que seja levado a sério por todos.
Tenho uma família que pode não ser a mais perfeita, mas é a exatamente ideal para mim.
Tenho uma cabeça com muito espaço ocupado e ainda muito a preencher.
Gosto do cheiro de terra molhada.
Não gosto de pisar na grama com orvalho estando com os pés descalços ou com calçado aberto.
Brincava com tatuzinho de jardim quando criança e comia miolinhos de flores.
Falo comigo em pensamento; na verdade, freqüentemente, discutimos muito.
Tenho problemas com auto-estima.
Sou incapaz de concluir qualquer descrição sobre mim mesma.

21/01/09

terça-feira, 2 de junho de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

tipo...

Tipo, sabe quando vc escuta alguém conversando, daí tipo, vc começa a perceber que a pessoa tipo repete demais certa palavra? aí, tipo, vc resolve começar a tipo contar quantas vezes a pessoa fala essa tal palavra. Tipo... isso aconteceu esses dias no trem. Tinha tipo um casal de estudantes universitários conversando sobre a "facool" e ela relatava alguma história para ele. Eu me ative aos "tipos" que, durante poucos cinco minutos em que eu me pus a contar, chegaram perto dos 20... Desisti porque cansei, afinal escutar conversa alheia, por mais que num coletivo seja inevitável, é deseducado (além de a história da moça ter se perdido no meio de tanto "tipo" disparado)...

Tem coisas que a gente fala sem nem perceber (tenho certeza que eu também às vezes solto alguns "tipos") e acabamos ficando com uns vícios de linguagem dos quais para "estar nos livrando" é sempre difícil... Eis aí nosso detestado e eterno gerúndio, que não me deixa mentir.


segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sismos, abalos, tremores.


Muito simplificadamente falando, abalos sísmicos, também chamados de terremotos, ocorrem como uma forma de liberar energia acumulada ao longo do tempo entre placas da crosta terrestre, que se movem devido a dinâmica interna da Terra, na qual o material das camadas internas se movimenta fazendo com que as placas na superfície também se movimentem. Mas esse movimento é lento e, ao longo do tempo, acumula energia que, de momento em momento é liberada por meio de tremores - e erupções vulcânicas em alguns casos mais específicos.

Os abalos sísmicos ocorrem sem prévio aviso, podendo até causar danos irreparáveis, conforme sua magnitude. Num momento tem-se tudo na mais perfeita ordem (ainda que esta "ordem" não seja propriamente perfeita) e no instante seguinte, o chão começa a tremer deixando tudo remexido, bagunçado, fora de lugar.

Por mais que se tente prever, nunca se sabe quando nem onde será o próximo, ele vem sem avisar. Algumas vezes superficiais, outras vezes mais profudos. Algumas vezes rápidos, outras vezes mais demorados. Algumas vezes fortes, outras vezes mais fracos. Mas sempre capazes de alterar a normalidade das coisas: um quadro que se desalinha na parede, um lápis que cai da mesa, um sobrado antigo que cai ou um prédio que desmorona.

Abalos na vida pessoal também podem ser fruto da dinâmica interna dos seres humanos. O acúmulo de emoções, de dúvidas, de tensões, em alguns momentos podem extravasar de forma inesperada, levando a situações que em alguns casos, podem ser bastante contornáveis e em outros, podem até mesmo ser irreparáveis.

O que se faz depois é o de sempre, independentemente do tamanho dos resultados do abalo. Sempre é preciso tentar arrumar, recolocar tudo no seu lugar, levantar o que caiu, reconstruir o que se perdeu, lamentar o que não se pode recuperar. E esperar que os próximos abalos menores que podem ocorrer como reflexo do primeiro, não causem o medo daquilo que é parte do funcionamento natural do planeta. Quanto aos tremores na vida pessoal, espera-se que os próximos abalos que podem ocorrer como reflexo do primeiro, não causem o medo de continuar tentando acertar, o que faz parte do funcionamento natural do ser humano.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

primavera nos dentes


Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

(Comp.: João Ricardo/João Apolinário)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

o tempo das coisas

Chega a ser até engraçado como as coisas acontecem exatamente como e quando devem acontecer. Eu, embora sempre tenha me declarado "acreditadora" disso, no fundo sempre mantive uma certa reserva... No entanto, hoje percebo que sim, elas acontecem à sua hora.

"Os momentos não chegam nunca tarde nem cedo, chegam à hora deles, não à nossa, não temos de agradecer-lhes as coincidências, quando ocorram, entre o que tinham para propor e o que nós necessitávamos." J.S.